
Lamento e choro e sofro.
Chamo-lhe fado, má sorte, desgraça, destino, azar.
Grito por alguém que me ajude, que me leve daqui, desta vida que não muda, desta tortura cíclica em que mergulho e não sei sair.
Ele chega.
Olha-me com ternura.
Sussurra que me ama enquanto me afasta a franja da testa.
Pega-me na mão, segura-me.
Diz que me vai salvar.
Diz que me vai proteger dos perigos desta vida madastra.
O mundo pára.
Olho-o com toda a dúvida que pode haver cá dentro.
Sinto-me perdida.
Mas vais salvar-me de quê?
De viver? De bater com a cabeça?
De me perder nos atalhos tortuosos deste mundo? De escorregar e cair?
De enfrentar as dúvidas e os perigos que espreitam a cada esquina?
De ficar sem chão, ferida?
De sofrer por amor? De dilacerar o coração?Olho-o novamente.
Deixo-me mergulhar no seu olhar doce de quem oferece tudo o que tem e mais do que pode dar.
Sorrio e fico calada.
Respondo cá dentro.
Não. Não posso. Não quero. Não consigo viver sem as dores e as vertigens, sem as dúvidas e as angústias. Não me posso permitir deixar de viver, de sentir todos os perigos e todas emoções intensas e loucas que tenho direito a viver. Quero perder-me para me encontrar em novos caminhos. Quero apaixonar-me pela lua mesmo que para isso possa ficar perdida na noite. Quero amar até doer. Quero voar até cair. Quero sentir o vento que corta e o sol que queima. Quero abrir o coração e poder enchê-lo de amor até rasgar o peito.Não quero que me salves e me protejas.
Quero viver e sentir...
Opto.
Fico sozinha.
Posso?