20/12/2009

"Contos em viagem- Brasil"



Mentiram-me.
Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente.
Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente

que acho que mentem sinceramente.
(...)
Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.

Mas não se chega à verdade

pela mentira, nem à democracia

pela ditadura.

(...)
Penso nos animais que nunca mentem,
mesmo se têm um caçador à sua frente.

Penso nos pássaros

cuja verdade do canto nos toca

matinalmente.

Penso nas flores

cuja verdade das cores escorre no mel

silvestremente.

Penso no sol que morre diariamente

jorrando luz, embora

tenha a noite pela frente.

(...)
Página branca onde escrevo.
Único espaço
de verdade que me resta.
Onde transcrevo

o arroubo, a esperança, e onde tarde

ou cedo deposito meu espanto e medo.


Para tanta mentira só mesmo um poema

explosivo-conotativo

onde o advérbio e o adjectivo
não mentem
ao substantivo
e a rima rebenta a frase

numa explosão da verdade.

E a mentira repulsiva

se não explode pra fora

pra dentro explode
implosiva.
(A implosão da mentira - Affonso Romano de Sant'Anna)

Uma noite fria.
Entra-se noutros meridianos que fazem lembrar momentos passados, parece que se navega naquele rio...
Tudo começa com "siga pelo caminho errado", só quando perdemos é que conseguimos encontrar.
Sons que transportam para outras geografias, sons de calor, sons de natureza, palavras que fazem sentido e que se levam para casa.
Ouvem-se as mentiras, guardam-se as verdades, no papel, no palco e na vida.

Pedrinho obrigada pela boa companhia nesse serão "Meridional".
Obrigada pelos desejos.

"Desejo a você" também!
:)

02/12/2009

Encerrando ciclos



É sempre preciso saber quando uma etapa chega ao fim.
Se insistirmos em permanecer nela
mais do que o tempo necessário,
perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver.

Encerrando ciclos,
fechando portas,
terminando capítulos,
não importa o nome que damos.

O que importa é deixar no passado
os momentos da vida que já se acabaram.
Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado,
nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem connosco.

As coisas passam e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora.
Por isso é tão importante (por mais doloroso que seja)
destruir recordações,
mudar de casa,
dar muitas coisas para orfanatos,
vender ou doar os livros que tem.

Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível,
do que está acontecendo em nosso coração
e o desfazer-se de certas lembranças

significa também abrir espaço
para que outras tomem o seu lugar.

Deixar ir embora.
Soltar.
Desprender-se.
Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas.
Portanto, às vezes ganhamos e às vezes perdemos.

Antes de começar um capítulo novo
é preciso terminar o antigo:
diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará.
Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa...
Nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade.
Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é muito importante.

Encerrando ciclos.
Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba.
Mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida.

Feche a porta,
mude o disco,
limpe a casa,
sacuda a poeira.

Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é.

(Paulo Coelho)