15/08/2010

tómate esta botella conmigo


"Nada me han enseñado los años
siempre caigo en los mismos errores
otra vez a brindar con extraños
y a llorar por los mismos dolores

Tómate esta botella conmigo
en el ultimo trago me dejas..."

(Chavela Vargas)

gostei de ouvir-te

13/08/2010

cantiga de amor


Era sábado. As noites começavam a aquecer.
Ele chega à minha casa, abro-lhe a porta, trazia uma camisa escura e o cabelo despenteado de gel.
Sentei-me no sofá e ele à minha frente.
O discurso era fatalista, porque tinha de ser, porque era o mais correcto... o fim, inevitavelmente o fim.
Nem eu nem ele ouvíamos o que dizíamos, chamávamos um pelo outro em silêncio.
Demos as mãos frente a frente.
Nunca consegui comunicar tão bem com ninguém através das mãos como o fazia com ele.
As nossas mãos falavam, diziam tudo, queriam tudo, compreendiam-se.
Olhei-o nos olhos, beijei-o:
-Faz amor comigo.
-Sabes que quero...
-Faz amor comigo como se fosse a última vez. - repeti-lhe.
-Não - disse ele - tem de ser como se fosse a primeira vez.
Entregámo-nos, fomos um do outro, inteiros, verdadeiros, o corpo, a alma, boca com boca, olhos nos olhos, palavras sussurradas... a minha cama foi dele e eu também.
Despedimo-nos à porta, beijou-me as lágrimas.
Saiu sem olhar para trás, vi-o afastar-se, fechei a porta com as costas e deixei-me escorregar até ao chão.
Ali, sentada na pedra fria, eu sabia...
Tínhamos os dois razão.
Aquela foi a primeira e a última vez que fizemos amor.

Porque a minha casa ainda se lembra de ti.

Cantiga de amor

12/08/2010

is it just a bag?

Sento-me no sofá e reparo na minha mala de viagem.
Está ali à porta e não me lembro há quanto tempo a deixei lá.
Desleixo?
Preguiça?
Falta de espaço?
Talvez. Talvez. Talvez.
Lembro-me de quando fui estudar para fora e religiosamente fazia e desfazia a mala: sexta-feira e domingo.
Arrumava a roupa nas gavetas, arrumava a mala, voltava a fazer a mala e desfazê-la à chegada. Sempre, religiosamente: sexta e domingo.
Agora estou aqui.
Aqui é a minha casa.
Aqui não tenho que fazer e desfazer a mala.
Sinto alguma falta disso, confesso.
Há muito tempo que não permanecia no mesmo sítio e isso às vezes assusta.
Acho que tenho alguns problemas de permanência, a minha mala junto à porta é só mais uma prova disso.
Ela quer apenas dizer que estou pronta para partir...

11/08/2010

quem és tu miúda?


Era a rota fotográfica do entardecer.
Partilhámos um pôr do sol numa praia citadina, numa praia de infância, numa costa escarpada e num romântico castelo habitado.
O dourado e o laranja acompanharam-nos e ficam-nos bem.
Ele beija-me mais uma vez, olha-me, segura-me entre as mãos e diz-me baixinho:
-Adoro esses lábios.
-Mas os meus lábios nem têm nada de especial, miúdo. São lábios normais, simples.
Ele toma apaixonadamente a palavra e fala como nunca o tinha ouvido falar, sem hesitações, sem dúvidas:
-Este é o teu carro, é a merda de um C3 (desculpa lá), não tem nada de especial, não é um carrão, não é uma grande bomba, não custa milhões...
Mas é o teu carro.
O que viveste com ele, o que ele significa para ti vale mais que todos os outros carros que andam por aí.
Consegues ver a diferença?
-Ai miúdo, tu és perigoso... - disse-lhe num sorriso.

Sim, eu percebia muito bem a diferença.
:)

Porque contigo vivi um Verão inesperado.

Quem és tu miúda?

10/08/2010

can't take my eyes off you


Maio. Noites mágicas.
A cabra iluminada velava altiva as águas calmas do Mondego.
Capas negras esvoaçavam, o som das guitarradas, seguíamos em bando para a beira-rio, riamos, conversávamos.
Falávamos de vidas passadas, vidas futuras, reencarnação, almas que se dividem e vivem vidas e vidas em busca dos pedaços perdidos.
Seguia o caminho a olhar para trás enquanto falava com ele.
Um pé no alcatrão. Sinto o seu braço firme a puxar-me para si.
Um carro desalvorado surge do nada e corta a curva numa velocidade que faz chiar as rodas.
Foi por pouco... o meu coração acelera, as minhas mãos tremem, sai-me quase numa expiração sussurrada:
-Salvaste-me a vida...
-Pois é. Agora deves-me uma.
-Então e qual vais querer? - perguntei-lhe a sorrir.
-Quero esta.
Mais tarde, nessa mesma noite, num beijo louco embriagado, selámos o compromisso.
Eu, ele, a lua a banhar-se no Mondego e o resto do mundo parou. Amanhecemos juntos na relva sob um céu em tons de púrpura.
E essa minha vida... foi dele.

Porque hoje lembrei-me de ti.

Can't take my eyes off you.

02/08/2010

leve

Pode sempre explicar-se o drama de uma vida através da metáfora do peso.
Costuma dizer-se que nos caiu um fardo em cima.
Carregamos com esse fardo, suportamo-lo ou não o suportamos. Lutamos com ele, perdemos ou ganhamos.
Mas o que acontecera ao certo a Sabina?
Nada.
Deixara um homem porque queria deixá-lo.
Esse homem tinha vindo atrás dela? Tinha querido vingar-se?
Não.
O seu drama não era o drama do peso, mas o da leveza.
O que se abatera sobre ela não era um fardo,
mas a insustentável leveza do ser.

(Milan Kundera)