30/08/2009

Príncipes e princesas


Estando em "idade casadoira" dificilmente nos conseguimos esquivar de um ou dois casamentos de amigos por ano.
Este último casamento a que fui foi brindado com a alegria, brincadeiras, correrias e traquinices de dezenas de crianças (os amigos também começam todos a ter filhos...)
Uma das coisas mais engraçadas que notei foi o deslumbramento das meninas de chorão de braçado ao ver a noiva. Já os meninos pouco olharam a noiva e muito menos o noivo, querem é brincar e pular e jogar às lutas e guerras com os amigos.
Isto tem tudo como pano de fundo a nossa educação enquanto crianças. Eu também fui uma "princezinha da Disney", educada com historinhas e filmes de animação em que a princesa encontrava o príncipe e vivia feliz para sempre, fazendo-nos acreditar que era a partir desse momento, a partir do momento em que esse estranho a cavalo as tomava nos braços e beijava que a sua vida mudaria e seria só felicidade.
As meninas olham a noiva e vêem a princesa, o vestido e todo aquela ambiente de velas e flores ajudam à fantasia.
Será que é isto que nós queremos para as nossas meninas, será que queremos que cresçam num mundo de fantasia?
Quando começaremos nós a educá-las para admirar a "tia solteirona"? Talvez fizesse mais sentido...
Afinal de contas, a tia solteirona habitualmente tem uma experiência de vida mais rica, é forte, decidida e independente, tem aventuras para contar, vários romances falhados que ensinam sempre tanto sobre a natureza humana... É mais viajada, fala várias línguas, ouve músicas fixes e tem a vantagem de não ter pudor em dar à jovem menina a sua primeira lingerie sexy enquanto a mãe se recusa a aceitar que a filha cresceu e insiste em vesti-la com roupinhas de princesa com folhinhos até ao pescoço. Normalmente a tia solteirona dá prendas boas e parece acertar naquilo que mais queríamos receber.
De nada nos vale a educação das princesas se o mundo real é feito de bruxas, madrastas, irmãs más e sapos, muitos sapos...
Não há príncipe que salve ninguém e o viver feliz para sempre é um esforço diário e temos de ser nós a fazê-lo, de dentro para fora.
Apesar de continuar a ser uma romântica da Disney (é difícil apagar tantos anos de "programação"), hoje gostaria que me tivessem educado para admirar a tia solteirona em vez da noiva, seria mais útil e mais real.

A todos os meus amigos que se casaram recentemente desejo as maiores felicidades, que saibam crescer enquanto casal e saibam viver as fantasias e o romantismo no mundo real.
Ah! E já agora, por favor, expliquem melhor essa história das princesas às vossas filhas. Não querem que elas se sintam as mulheres mais infelizes do mundo só porque não lhes apareceu o príncipe no cavalo branco...

"Esta vida são dois dias e um é para acordar das histórias de encantar..."

20/08/2009

Can you walk in my shoes?


"You can't really understand another person's experience until you've walked a mile in their shoes"


Can you walk in my shoes?

06/08/2009

Portas e janelas

"Quando Deus nos fecha uma porta, abre-nos algures uma janela"

Não posso dizer que a minha vida tenha sido madrasta, até me considero uma pessoa abençoada e feliz (à minha maneira).
No entanto, nada do que tenho na vida me apareceu de mão beijada, nem nada me caiu do céu.
O que sou e o que consegui foi à custa de pequenas-grandes batalhas, de lutas (às vezes até comigo própria), à custa de opções difíceis, de várias quedas, de várias portas na cara...
Mas sim, é verdade, há sempre a tal janela entre-aberta à minha espera, basta estar atenta.
É claro que entrar por janelas é bem mais empolgante, é diferente, é original, estimulante, dá uma certa pica.
Como consequência de tantas janelas ganhei umas quantas esfoladelas, abrasões, equimoses, até algumas luxações que me ficaram para sempre e voltam com dores fininhas quando o tempo vai mudar ou quando vai chover (como diz a minha avó quando lhe dói o joanete).
É verdade, ganhei alguma prática nisto das janelas, e apesar de toda a emoção que isso traz, por favor, oh Deus! que tal uma porta só para variar?...

01/08/2009

Metáforas de Verão


Pequenos prazeres nas férias de Verão:
- Mergulhar o corpo na água do mar e deixar-me levar ao sabor da maré, como um barco à deriva.
- Ficar de pé à beira-mar e sentir a terra a fugir-me debaixo dos pés com o recuar das ondas.
- Caminhar descalça na areia e sentir os pés enterrarem-se, os pequenos grãos que massajam os pés e passam entre os dedos.
- Assistir ao pôr-do-sol, quando as sombras se deitam, o mar toma um banho dourado, os relevos da areia alternam entre sombra e luz e o céu ganha cores que passam pelo azul, o lilás, o amarelo e o laranja.

Gosto destas sensações, mas só na sua descrição e significado literal.
Acaba por ser irónico... Logo eu que gosto tanto de metáforas...
Metaforicamente detesto deixar-me levar ao sabor da maré, não sou nem nunca fui uma maria-vai-com-as-outras.
Detesto sentir a terra a escapar-me debaixo dos pés, sentir-me sem chão, sentir que perdi as certezas, que estou a cair, detesto sentir que me estou a enterrar.
As sombras aprendi a aceitá-las, causadoras de muitos medos na infância quando eram o esconderijo de monstros tenebrosos, agora acho que até gosto das sombras, significa que do outro lado se encontra a luz.
É só outra maneira de ver as coisas...

Qual é a cidade?


Li há alguns dias num livro que podemos resumir a identidade de um local ou de uma pessoa a uma só palavra e que isso nos pode ajudar a perceber porque há sítios, lugares, países, cidades onde nos sentimos em casa e outros em que, por mais que nos esforcemos não conseguimos aceitar como nossos.
Ao início isto pode parecer uma ideia muito redutora, mas obrigou-me a um exercício muito interessante e inesperado.
Já vivi em várias cidades e descobri um nome/palavra para cada uma delas.
A cidade onde nasci e onde vivi a adolescência não consigo identificá-la com mais nenhuma palavra a não ser FAMÍLIA, não sei se é uma ideia ou pensamento comum aos seus habitantes, mas não consigo desligar a palavra à terra. É onde eu tenho o colo, é onde reencontro os familiares mais próximos do coração e os amigos de berço que, por sempre terem existido na minha vida, são família também.
Coimbra, onde estudei, pode ser duas palavras.
Coimbra é SAUDADE. Respira-se a saudade, canta-se e vive-se a saudade. É uma cidade que ficou e ficará para sempre guardada no meu coração, onde gosto de voltar todos os anos, mas não é uma cidade onde pudesse viver. Sou nostálgica e romântica, podia inserir-me nesse contexto, mas SAUDADE não é a palavra que me identifica. Se voltasse a viver em Coimbra possivelmente ir-me-ia afundar em melancolia.
Coimbra é também UNIVERSIDADE, mas mais uma vez, só se sente e faz sentido vivê-lo enquanto se é estudante.
Évora, onde trabalhei alguns anos é CALMIA, como a paisagem, como as planícies, como a maneira que o sol encontra de a banhar. É uma cidade cheia de pequenos encantos, boa gastronomia, habitantes risonhos e simpáticos. É uma terra linda para se visitar, mas para mim a calmia não me chega para viver, sinto-me enclausurada e falta-me o ar, falta-me qualquer coisa para além do que Évora oferece.
Lisboa, acho que é FADO. O fado não só como canção, mas em todo o seu significado, de destino, de aceitação, em todas as suas vertentes bairrista, da espera, da tristeza, de paisagens e cheiros que a própria cidade vai desenhando.
Lisboa ainda encerra em si o cheiro da sardinha assada, o som da guitarra portuguesa pelas vielas de alfama, as "peixeiradas" nos bairros, a tristeza de quem espera que nos ficou das mulheres que viram os homens partir para o mar e nunca mais voltaram...
Lisboa é FADO, é esse fado de quem espera, senta, conta, chora, sente e sofre.
Apesar do fado me dizer muito à alma, apesar de o sentir na pele e nos ossos, não sei se consigo dizer que esta é a minha cidade. Estou a aprender a descobrir e amar Lisboa, mas também não é esta a minha palavra.
Foi muito fácil saber a minha palavra e quem me conhece também a descobre facilmente. Está presente em todos os meus dias, está em mim, em tudo o que sou, tudo o que faço, está na minha maneira de me comunicar, na minha vida, nas minhas escolhas, em tudo o que me faz feliz.
Será que alguem conhece a cidade do AMOR?