Nunca percebi muito bem o porquê da associação do bendito santo aos casamentos, o que é verdade é que transpira-se esta carga dos amores, dos casais e do par ideal nas ruas, na comunicação social e, infelizmente, no meu coração.
Muitas vezes, dou por mim a pensar no que ando eu a fazer mal, que se passa comigo, onde nesse caminho me extraviei para não ter aquilo que "todos" têm, por não ter encontrado a outra metade, essa tranquilidade ao lado de alguém que tanto se fala.
Saio de casa e vou ao supermercado.
O dia está quente (já o ano passado assim foi).
À entrada compro um manjerico, não tem quadra.
Faço as compras da semana.
Como sempre escolho a fila mais lenta. Oiço a senhora da caixa a comentar que está mesmo a precisar das férias que aí vêm.
Vai ficar por casa, não tem companhia para ir a lado nenhum, só o filho, mas esse prefere os amigos. É divorciada.
Sigo à padaria do bairro.
Está uma fornada de pão a sair.
A senhora que está a atender desabafa com uma cliente. Encontrou o filho a falar com uma amiguinha na net, olhou para a mãe com os olhos brilhantes de lágrimas contidas. Não conseguiu responder à amiga, não conseguiu dizer-lhe que o pai saiu de casa sem aviso, que o abandonou a ele e à mãe. Escondeu-lhe a verdade, não vale a pena falar nisso, disse ele.
Volto para casa com os sacos nas mãos.
Repensam-se as mágoas.
Estou bem. Acho que não preciso dessa outra metade (porque já sou inteira), a tranquilidade encontro-a na minha solidão que é escolha, que é calma, que é cheia daquilo que gosto de fazer sem precisar do aval de ninguém.
É noite ébria, noite de transbordar as "mágoas" em diversão e sorrisos.
O pretexto da festa ajuda sempre e na inspiração do momento, num regresso a casa flutuando em vapores inebriantes dos restos de folia faz-se a quadra para o manjerico:
O meu material de pesca há muito que não trabalha (nem sei se algum dia chegou a trabalhar verdadeiramente), serve para ir brincando aqui e ali numa vertente amadora e desportiva.
A fome obriga-nos a aceitar qualquer peixe que apareça e eu não preciso pescar para comer, o que é uma vantagem.
Por isso, enquanto durar a brincadeira, brinquemos!
A todos um feliz dia de Santo António.