13/06/2009

Santo António

Dia de Santo António.
Nunca percebi muito bem o porquê da associação do bendito santo aos casamentos, o que é verdade é que transpira-se esta carga dos amores, dos casais e do par ideal nas ruas, na comunicação social e, infelizmente, no meu coração.
Muitas vezes, dou por mim a pensar no que ando eu a fazer mal, que se passa comigo, onde nesse caminho me extraviei para não ter aquilo que "todos" têm, por não ter encontrado a outra metade, essa tranquilidade ao lado de alguém que tanto se fala.
Saio de casa e vou ao supermercado.
O dia está quente (já o ano passado assim foi).
À entrada compro um manjerico, não tem quadra.
Faço as compras da semana.
Como sempre escolho a fila mais lenta. Oiço a senhora da caixa a comentar que está mesmo a precisar das férias que aí vêm.
Vai ficar por casa, não tem companhia para ir a lado nenhum, só o filho, mas esse prefere os amigos. É divorciada.
Sigo à padaria do bairro.
Está uma fornada de pão a sair.
A senhora que está a atender desabafa com uma cliente. Encontrou o filho a falar com uma amiguinha na net, olhou para a mãe com os olhos brilhantes de lágrimas contidas. Não conseguiu responder à amiga, não conseguiu dizer-lhe que o pai saiu de casa sem aviso, que o abandonou a ele e à mãe. Escondeu-lhe a verdade, não vale a pena falar nisso, disse ele.
Volto para casa com os sacos nas mãos.
Repensam-se as mágoas.
Estou bem. Acho que não preciso dessa outra metade (porque já sou inteira), a tranquilidade encontro-a na minha solidão que é escolha, que é calma, que é cheia daquilo que gosto de fazer sem precisar do aval de ninguém.

É noite ébria, noite de transbordar as "mágoas" em diversão e sorrisos.
O pretexto da festa ajuda sempre e na inspiração do momento, num regresso a casa flutuando em vapores inebriantes dos restos de folia faz-se a quadra para o manjerico:


O meu material de pesca há muito que não trabalha (nem sei se algum dia chegou a trabalhar verdadeiramente), serve para ir brincando aqui e ali numa vertente amadora e desportiva.
A fome obriga-nos a aceitar qualquer peixe que apareça e eu não preciso pescar para comer, o que é uma vantagem.
Por isso, enquanto durar a brincadeira, brinquemos!
A todos um feliz dia de Santo António.

08/06/2009

Aquilo que sou

Se um dia me aproximar de ti
Não penses que é só um flirt
Não julgues que é um filme
Que já viste em qualquer parte

Pensa bem antes de agir
Evita ser imprudente
Faz a carta do meu signo
E vê à lupa o ascendente

Tem cuidado e tira a teima
Vê aquilo que sou
Tem cuidado e tira a teima
Vê aquilo que sou


Tu não sonhas ao que venho
Não sabes do que sou capaz
Eu dou tudo quanto tenho
Não funciono a meio gás

Vem sentar-te à minha frente
E diz-me o que vês em mim
Não respondas já a quente
Pondera antes de dizer sim

Tem cuidado e tira a teima
Porque aquilo que sou fere, rasga e queima
Tem cuidado e tira a teima
Porque aquilo que sou fere, rasga e queima

Diz-me, diz-me se vês o granito
Onde se gravam os grandes temas
Diz-me se vês o amor infinito
Ou somente um par de algemas

Tem cuidado e tira a teima
Porque aquilo que sou fere, rasga e queima
Tem cuidado e tira a teima
Porque aquilo que sou fere, rasga e queima

Tem cuidado e tira a teima
Vê aquilo que sou
Tem cuidado e tira a teima
Vê aquilo que sou

04/06/2009

Pescar um espadarte



Pescar um espadarte não é fácil.

Torna-se ainda mais difícil quando nunca vimos nenhum, nunca comemos nenhum, quando o mais perto que estivemos de encontrar um foi nas palavras da experiência de alguém.

Será que existem mesmo espadartes?

Não será isso um mito? como as sereias que seduzem marinheiros desprevenidos?

Perco-me muitas vezes nesta pesca de um peixe que não conheço...

A pesca é difícil e exigente.

Nunca tive a paciência necessária para pescar.
Divirto-me a observar a minha (má) sorte no anzol, mas o tempo de espera é sempre para mim uma tortura.


Pesco muitas algas com as mais variadas cores e formas, que me dão vida à rede, me alegram e me divertem.

Pesco peixinhos dourados, carapaus desenxabidos, taínhas asquerosas, polvos metediços, estrelas e ouriços do mar (bonitos de ver mas que não servem para comer), peixes de rio, peixes de mar, peixes de aquacultura que nunca experimentaram a liberdade... devolvo-os todos, deixo-os ir.


No entanto, noto em mim uma forte tendência para a sardinha.
A pequena, louca e irrequieta sardinha.

Aguardo um Inverno de ansiedade para a reencontrar, delicio-me com ela, adoro o seu sabor, satisfaz-me nas noites quentes de Verão.

É um peixe que nos deixa nas mãos o seu cheiro durante horas, lavo, lavo e lavo e o cheiro permanece cravado na pele.

É também frequente, depois da refeição, ficar com uma espinha ou outra atravessada na garganta como aquelas palavras que nos engasgam e custam a sair.

Acabando o Verão desaparecem, vão embora nos seus cardumes de loucura.

Gosto de sardinhas, sei que gosto.


Como vou eu pescar um espadarte, se não consigo esquecer as sardinhas?

Será que quero mesmo pescar um espadarte?

Será que tenho essa força? essa vontade? esse querer?


Será que prefiro a certeza e segurança de um peixe "rico" como o espadarte ou o desafio espinhoso, a aventura alucinante, o vai e volta inconstante e o intenso sabor da sardinha?


As metáforas matam-me, mas a vida é mesmo um
mar de dúvidas...