30/12/2010

metamorfose


Sinto que envelheci 10 anos.

É incrível como, em pouco mais de um par de anos,
passei de uma menina de 20 para uma mulher de 30.

As diferenças estão aí... e não é mau.

27/12/2010

O porquê da minha dificuldade em dormir com alguém?
Acho que é porque me demoro a olhar, cheirar, sentir, descobrir todo um corpo
tal como um recém-nascido a absorver o mundo.

19/12/2010

my heart

"Every night i cut out my heart,
but in the morning it was full again"


The english patient

16/12/2010

alone












if you're worried on being alone,

don't be...

because you're not...

10/12/2010

o dia em que te conheci


No dia em que te conheci, o céu estava cinzento.
Haviam muitas nuvens lá no alto, daquelas brincalhonas, cheias de energia, que correm de um lado para outro ao sabor do vento.
A chuva era fininha e fugidia, como se brincasse às escondidas ou à apanhada.
Ao meu lado e à minha frente esteve a fazer-me companhia um grande e lindo arco-íris durante todo o caminho.
O arco-íris tinha todas as cores, daquelas brilhantes, que nos fazem ficar a olhar para cima sem dar conta do tempo passar, daquelas cores vibrantes que nos fazem sorrir e sonhar.
No dia em que te conheci, a música no rádio era alegre e fui sempre a cantar.
Quando te encontrei e te acolhi nos meus braços, o meu coração encheu-se de alegria.
Olhei para ti, sorri-te do fundo da alma e dei-te as boas vindas.
Abraços quentinhos, muitos beijos e miminhos de nariz, conversas só nossas de promessas e planos para o futuro.
Foi só um dia, sei que teremos muitos mais para a frente, mas por ser o primeiro será sempre especial.
Fiquei contigo no coração e adoro-te desde o começo.
Bem-vinda Sofia!

06/12/2010

nada


-Trabalhaste ontem?

-Não. Estive de folga.

-E que fizeste?

-Nada.

-Nada? Então?...

-Nada. Não me apeteceu fazer nada.
Agora funciono assim.
Se não me apetecer fazer nada, não faço.
Se me apetece passo horas a ver TV, ou na internet.
Vejo os filmes que quiser, se me apetecer, se não me apetecer, não vejo.
Leio quando me apetece e o que me apetece e ao ritmo que me apetecer. Às vezes leio 2 ou 3 livros numa semana e outras vezes demoro meses a ler o mesmo.
Como quando tenho fome.
Arrumo a casa se me apetecer, lavo a loiça quando der.
Às vezes durmo no sofá.
Vou p'ra cama quando tenho sono.
Durmo à hora que adormecer e acordo à hora que tiver de acordar.
Deixei de contar as horas de sono, deixei de me angustiar por uma noite mal dormida.
Faço o que me apetece.
Não conto as horas que passo no café, nem a ler, nem a fazer nada.

-Mas estás bem?

-Sim. Ando a satisfazer-me.
Não tenho nada a provar a ninguém, nem a mim mesma.
Não sinto necessidade de fazer coisas e ir a sítios e mostrar "trabalho".
Estou assim. Só para mim.
Sem fazer nada.

26/11/2010

embrasse-moi

Esta noite vieste até mim,
senti-te, cheirei-te, saboreei-te

Estava lá o teu sorriso e aquele olhar...

Senti o teu abraço quentinho, carinhoso,
as tuas mãos que encontravam as minhas,
o toque da tua pele,
aquele sentimento de pertença e de verdade que já tinha esquecido.
Abraçaste-me, beijaste-me.

Abri os olhos e não estavas,
mas tive-te comigo todo o dia...

assim..


gostei da visita :)

17/11/2010

sobre a velhice


Ainda sou do tempo em que as crianças aprendiam a respeitar os mais velhos, a vê-los como fonte de sabedoria e admirar as suas histórias de vida.
Hoje envelhecer tornou-se um incómodo, um empecilho.
Vivemos a fugir da velhice inevitável e perdemos o nosso tempo que escasseia a arranjar estratégias para nos mantermos jovens.
Hoje ninguém quer saber o significado das linhas que foram surgindo no rosto de alguém, que histórias têm para contar, que lições aprenderam ao longo dos anos, que amores sentiram, que aventuras viveram.
Hoje ser velho é ser nada, ou pior, é ser um estorvo, algo a despachar...

Facilmente alguém diz que dá a vida por um filho.
Matam-se a trabalhar para lhes darem "tudo", deixam de ter vida própria em prol daquele rebento. Tudo passa a girar em torno daquele pequeno e recente ser, que ainda nada é, nada foi, nada deu, nada viveu.
Mas quem, hoje em dia, faz o mesmo por um pai?
Quem deixa a sua vida para cuidar e acompanhar até ao final esse ser que lhes deu tudo, que viveu por eles, que sofreu por eles, que deu histórias ao mundo, que traçou o seu caminho, esse ser que lhes deu a vida?...
Que exemplo estão a dar aos vossos filhos quando tratam os vossos pais como estorvo?
É assim que querem ser tratados também?
Querem livrar-se da velhice, livrando-se dos velhos.
Não vêem que jamais voltarão a ser crianças, mas que o futuro é a envelhecer.
Envelhecer é inevitável, há que saber fazê-lo bem, há que aprender com os outros que já passaram por lá, há que tirar o melhor que daí vem.
Envelhecer é algo comum a todos nós.
Respeitemos, amemos e admiremos o caminho longo que alguém trilhou.
Um dia, mais tarde, talvez alguém possa olhar para nós com a mesma admiração.

Para a minha avó.


"Sejamos a mudança que queremos ver no mundo" - Gandhi

16/11/2010

ainda há quem compreenda

O que quero é fazer o elogio do amor puro.
Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade.
Já ninguém quer viver um amor impossível.
Já ninguém aceita amar sem uma razão.
Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática.
Porque dá jeito.
Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em “diálogo”.
O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões.
O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem.
A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível.
O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam “praticamente” apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.
Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá bem, tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.

Já ninguém se apaixona?

Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso “dá lá um jeitinho sentimental”.

Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos.
Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores.
O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.

Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.
O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.
O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina.
O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima.

O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente.
O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.
O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.

O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida.
A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre.
Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem.

Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.

A vida é uma coisa, o amor é outra.
A vida dura a Vida inteira, o amor não.
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira.
E valê-la também.

Miguel Esteves Cardoso

13/11/2010

home




I need to go home


I just don't know where home is...

10/11/2010

outras dores



Não me dói tê-lo perdido, porque nunca o tive

dói-me que tenha levado consigo a minha capacidade de amar...

07/11/2010

encontrei-te


Procurava algo assim.
Saí sem rumo, sem direcção específica.
Deixei que as rodas me levassem, parei onde houve espaço para parar e andei.
Encontrei-o ali, na minha frente, a meio do caminho de não sei o quê.
E ali estava, exactamente como eu tinha desejado, com um lugar só para mim.
Encontrar aquilo que se procura tem um gosto especial, as coisas têm outro sabor, outro calor, outro aconchego.
O sorriso não me largou toda a tarde.
Só por isso, hoje sinto-me feliz!
:)

06/11/2010

choice



When once, through my treachery, it had been necessary to him to make a choice (...)
His choice had been to stay in the deep dark water far out beyond all snares and traps and treacheries.
My choice was to go there to find him beyond all people.
Beyond all people in the world.
Now we are joined together and have been... and no one to help either one of us.

(The old man and the sea - Ernest Hemingway)

03/11/2010

sobre nós



desatar nós, soltar amarras, largar as cordas soltas no vento, no sol...
porque a vida dá as suas voltas, porque o que é hoje muda para sempre amanhã, porque até nos momentos piores podemos aprender a ser felizes..

28/10/2010

shhhh...



"It was considered a virtue not to talk unnecessarily at sea
and the old man had always considered it so and respected it"

The old man and the sea - Ernest Hemingway

16/10/2010

it's just a dream



Underneath this stillness
I swim a troubled sea...

15/10/2010

sede



tenho em mim uma sede imensa,
sede de amar, de viver, de sentir, de aprender, de conhecer, de saber...
sede, sede, tanta sede...
dai-me fontes, dai-me rios, dai-me lagos, dai-me mares
às vezes acho que o mundo não me chega
tenho sede...

ones and others

why do the good guys always think they're not good enough for us, that they're not worthy and we deserve so much more than them?

why do scum, fools and crazy guys always think they can, they deserve, they will succeed?

ones makes us goddesses,
the others
think we're stupid...

isn't it ironic?

oh god! give some fangs to the good ones and gag the others...

05/10/2010

interesse

as relações no mundo marinho assemelham-se às do mundo dos homens

"boleias"
alimento
cópula, procriação
diversão
higiene das escamas, aparência
protecção de peixes maiores
cardume, não estar só
poder, domínio, território

a base é o interesse
no mar o peixe sabe que vai comer e o outro sabe que se não fugir será comido,
um agrega-se a outro para recolher alimento das suas escamas e ele deixa porque lhe sabe bem, sente-se melhor
são interesses e são limpos, evidentes
cessa o interesse, cessa a relação

canso-me deste mundo (des)humano
acho que vivia melhor com a clareza marinha

as relações no mundo marinho não diferem muito das relações humanas
a transparência nos interesses é que não é a mesma...

29/09/2010

y él dijo


"(...) la besé por todo el cuerpo hasta quedarme sin aliento:
la espina dorsal, vértebra por vértebra, hasta las nalgas lánguidas, el costado del lunar, el de su corazón inagotable.
A medida que la besaba aumentaba el calor de su cuerpo y exhalaba una fragancia montuna.
Ella me respondió con vibraciones nuevas en cada pulgada de su piel, y en cada una encontré un calor distinto, un sabor proprio, un gemido nuevo, y toda ella resonó por dentro con un arpegio y sus pezones se abrieron en flor sin tocarlos (...)"


Gabriel Gárcia Márquez en Memória de mis putas tristes

28/09/2010

cicatrizes



Certos acontecimentos deixam a sua marca.

CORTES

FERIDAS

CICATRIZES

Quanto mais vivido e mais intenso o acontecimento, mais profunda a marca e mais evidente a cicatriz.
Quando a cicatriz se pode tapar, apenas a mostramos a quem confiamos, a quem se mostra merecedor da nossa intimidade.
Às vezes falhamos as contas, esticamo-nos um bocadinho mais e, quase sem dar conta, ela aparece.
Sabemos que se viu, uns denunciam-na logo, outros fingem que não a viram e outros fazem-nos perguntas e querem saber como a fizemos.
Partilhamos o que queremos partilhar, contamos o que queremos contar e a quem acharmos merecedor dessa confidência.
Quando o fazemos é porque confiamos, é porque acreditamos.
O tempo passa e revela os erros de cálculo.
Ninguém gosta de ouvir vezes sem conta as mesmas conversas, as mesmas perguntas.

depois do acidente não voltaste a ser a mesma
...
ainda hoje me pergunto como pudeste fazer uma coisa dessas..
logo tu...
tens uma cicatriz enorme...

Ninguém gosta que lhe apontem o dedo,
ninguém gosta de ser massacrado por um erro
antigo, antigo...

26/09/2010

por toda la vida

-Y hasta cuándo cree usted que podemos seguir en este ir y venir del carajo? - le preguntó.

Florentino Ariza tenia la respuesta preparada desde hacía cincuenta y tres años, siete meses y once dias con sus noches.

- Toda la vida - dijo.

(Gabriel García Márquez - El amor en los tiempos del cólera)

Auto-estima


A auto-estima é algo de curioso quando conhecemos alguém.
A auto-estima deve ter a forma, o tamanho e a quantidade certa.
Tanto a sua falta como o seu excesso pode actuar como um repelente poderoso.
A auto-estima... quem diria...
É mesmo um ponto importante.
Nem sim, nem não.
Nem mais, nem menos.

Na conta certa.

19/09/2010

qual é o teu caminho?



Hoje passei o dia numa sala com cerca de 100 pessoas.
Hoje passei o dia sentada no chão tendo apenas meio metro quadrado para ocupar.

Hoje passei o dia rodeada por estranhos.
Estranhos que se abraçam.

Estranhos que passam horas sem comer, sem esticar as pernas, sem dormir.
Estranhos que sorriem mesmo quando o calor aperta, as forças falham e o corpo pede clemência.
Estranhos que ouvem silenciosamente.

Estranhos com muitas histórias para contar.

A proximidade foi muita.
A partilha também.
Nem tudo é meu, nem tudo será meu, nem tudo quero que seja.
Tiramos o bom que temos de tirar das coisas e levamos para casa o que queremos levar.

No meio da sessão o homem ao meu lado dirige-me a palavra:

-Há coisas que eu ainda não percebo nesta filosofia.
É suposto ser-se vegetariano aqui, mas estão "autorizados" a comer peixe ocasionalmente.
Devo dizer que para mim é tão bom comer um belo bife de vaca como saborear uma boa posta de espadarte! e sorriu.
Sorri de volta:
-Para mim também.
As coisas mais fantásticas são ouvidas nos sítios mais inesperados.

Estamos no caminho certo.

O nosso.

se eu quiser...

tenho que ficar a sós
tenho que apagar a luz
tenho que calar a voz
tenho que encontrar a paz
tenho que folgar os nós
dos sapatos, da gravata
dos desejos, dos receios
tenho que esquecer a data
tenho que perder a conta
tenho que ter mãos vazias
ter a alma e o corpo nus...

tenho que aceitar a dor
tenho que comer o pão
que o diabo amassou
tenho que virar um cão
tenho que lamber o chão
dos palácios, dos castelos
sumptuosos do meu sonho
tenho que me ver tristonho
tenho que me achar medonho
e apesar de um mal tamanho
alegrar meu coração...

tenho que me aventurar
eu tenho que subir aos céus
sem cordas para segurar
tenho que dizer adeus
dar as costas, caminhar
decidido, pela estrada
que ao findar vai dar em
nada, nada, nada, nada
nada, nada, nada, nada
nada, nada, nada, nada
do que eu pensava encontrar


(Gilberto Gil)

18/09/2010



quero correr, fugir, voar...
até ti...

onde estás?

12/09/2010

sinto-me uma fotocópia, prefiro o original

i am who i am.
there's nothing i can do to change that.
i'm not like everybody else, i'm me and i'm different.
i'm not someone's copy and i don't want to be.
i know me and i accept me.
i am who i am.
somethings are as they are, no matter what.

a chair is still a chair even when there's no one sitting there.
e a lua acompanhou-me durante a viagem.
assim,

pendurada de lado,

como se fosse um brinco...

15/08/2010

tómate esta botella conmigo


"Nada me han enseñado los años
siempre caigo en los mismos errores
otra vez a brindar con extraños
y a llorar por los mismos dolores

Tómate esta botella conmigo
en el ultimo trago me dejas..."

(Chavela Vargas)

gostei de ouvir-te

13/08/2010

cantiga de amor


Era sábado. As noites começavam a aquecer.
Ele chega à minha casa, abro-lhe a porta, trazia uma camisa escura e o cabelo despenteado de gel.
Sentei-me no sofá e ele à minha frente.
O discurso era fatalista, porque tinha de ser, porque era o mais correcto... o fim, inevitavelmente o fim.
Nem eu nem ele ouvíamos o que dizíamos, chamávamos um pelo outro em silêncio.
Demos as mãos frente a frente.
Nunca consegui comunicar tão bem com ninguém através das mãos como o fazia com ele.
As nossas mãos falavam, diziam tudo, queriam tudo, compreendiam-se.
Olhei-o nos olhos, beijei-o:
-Faz amor comigo.
-Sabes que quero...
-Faz amor comigo como se fosse a última vez. - repeti-lhe.
-Não - disse ele - tem de ser como se fosse a primeira vez.
Entregámo-nos, fomos um do outro, inteiros, verdadeiros, o corpo, a alma, boca com boca, olhos nos olhos, palavras sussurradas... a minha cama foi dele e eu também.
Despedimo-nos à porta, beijou-me as lágrimas.
Saiu sem olhar para trás, vi-o afastar-se, fechei a porta com as costas e deixei-me escorregar até ao chão.
Ali, sentada na pedra fria, eu sabia...
Tínhamos os dois razão.
Aquela foi a primeira e a última vez que fizemos amor.

Porque a minha casa ainda se lembra de ti.

Cantiga de amor

12/08/2010

is it just a bag?

Sento-me no sofá e reparo na minha mala de viagem.
Está ali à porta e não me lembro há quanto tempo a deixei lá.
Desleixo?
Preguiça?
Falta de espaço?
Talvez. Talvez. Talvez.
Lembro-me de quando fui estudar para fora e religiosamente fazia e desfazia a mala: sexta-feira e domingo.
Arrumava a roupa nas gavetas, arrumava a mala, voltava a fazer a mala e desfazê-la à chegada. Sempre, religiosamente: sexta e domingo.
Agora estou aqui.
Aqui é a minha casa.
Aqui não tenho que fazer e desfazer a mala.
Sinto alguma falta disso, confesso.
Há muito tempo que não permanecia no mesmo sítio e isso às vezes assusta.
Acho que tenho alguns problemas de permanência, a minha mala junto à porta é só mais uma prova disso.
Ela quer apenas dizer que estou pronta para partir...

11/08/2010

quem és tu miúda?


Era a rota fotográfica do entardecer.
Partilhámos um pôr do sol numa praia citadina, numa praia de infância, numa costa escarpada e num romântico castelo habitado.
O dourado e o laranja acompanharam-nos e ficam-nos bem.
Ele beija-me mais uma vez, olha-me, segura-me entre as mãos e diz-me baixinho:
-Adoro esses lábios.
-Mas os meus lábios nem têm nada de especial, miúdo. São lábios normais, simples.
Ele toma apaixonadamente a palavra e fala como nunca o tinha ouvido falar, sem hesitações, sem dúvidas:
-Este é o teu carro, é a merda de um C3 (desculpa lá), não tem nada de especial, não é um carrão, não é uma grande bomba, não custa milhões...
Mas é o teu carro.
O que viveste com ele, o que ele significa para ti vale mais que todos os outros carros que andam por aí.
Consegues ver a diferença?
-Ai miúdo, tu és perigoso... - disse-lhe num sorriso.

Sim, eu percebia muito bem a diferença.
:)

Porque contigo vivi um Verão inesperado.

Quem és tu miúda?

10/08/2010

can't take my eyes off you


Maio. Noites mágicas.
A cabra iluminada velava altiva as águas calmas do Mondego.
Capas negras esvoaçavam, o som das guitarradas, seguíamos em bando para a beira-rio, riamos, conversávamos.
Falávamos de vidas passadas, vidas futuras, reencarnação, almas que se dividem e vivem vidas e vidas em busca dos pedaços perdidos.
Seguia o caminho a olhar para trás enquanto falava com ele.
Um pé no alcatrão. Sinto o seu braço firme a puxar-me para si.
Um carro desalvorado surge do nada e corta a curva numa velocidade que faz chiar as rodas.
Foi por pouco... o meu coração acelera, as minhas mãos tremem, sai-me quase numa expiração sussurrada:
-Salvaste-me a vida...
-Pois é. Agora deves-me uma.
-Então e qual vais querer? - perguntei-lhe a sorrir.
-Quero esta.
Mais tarde, nessa mesma noite, num beijo louco embriagado, selámos o compromisso.
Eu, ele, a lua a banhar-se no Mondego e o resto do mundo parou. Amanhecemos juntos na relva sob um céu em tons de púrpura.
E essa minha vida... foi dele.

Porque hoje lembrei-me de ti.

Can't take my eyes off you.

02/08/2010

leve

Pode sempre explicar-se o drama de uma vida através da metáfora do peso.
Costuma dizer-se que nos caiu um fardo em cima.
Carregamos com esse fardo, suportamo-lo ou não o suportamos. Lutamos com ele, perdemos ou ganhamos.
Mas o que acontecera ao certo a Sabina?
Nada.
Deixara um homem porque queria deixá-lo.
Esse homem tinha vindo atrás dela? Tinha querido vingar-se?
Não.
O seu drama não era o drama do peso, mas o da leveza.
O que se abatera sobre ela não era um fardo,
mas a insustentável leveza do ser.

(Milan Kundera)

31/07/2010

o prazer de estar juntos


-Então boa noite... - engasga-se num silêncio.
-Vá, diz lá o resto.
-Nada, porquê? Tens tu alguma coisa para dizer? - defende-se ele.
-Parecia que ias dizer-me mais qualquer coisa, podes dizer.
-Gosto dos teus caracóis... na minha almofada.
Sorri e deixei-me dormir.
Acordou-me de manhã antes de sair para o trabalho.
Um toque na minha mão e um beijo no ombro.
E a isto chamam eles "não se ter passado nada"...
:)
n'diale

10/07/2010

birds


Não gosto de peixes em aquários, mas ainda me dói mais ver pássaros em gaiolas.
Os peixes, bem ou mal ainda usam as barbatanas e nadam pelas águas mais restritas dos aquários onde os fecham, não percorrem o oceano, mas sentem a água, passa pelas guelras, banham-se...
Ter asas e ser impedido de voar é um castigo cruel e humilhante.
Privar algo da liberdade, seja de que forma for, é acabar com o ser.
Franzo o nariz e "ralho" quando vejo um pássaro numa gaiola.
Invejo nas aves a liberdade do voo, o distanciamento, o planar no alto, a perspectiva alargada, o vento em redor do corpo, o ar que passa nas asas.
Até o canto dos pássaros é mais melodioso em liberdade, embala, adormece, faz sonhar.
Oiço muitas vezes a retórica do: "estes nunca viveram em liberdade, se os soltarmos não conseguirão sobreviver"
Pois aqui vos digo meus amigos,
escolheria mil vezes
morrer a tentar!

19/06/2010

surprising as life can be

"porque a vida ri-se das previsões
põe palavras onde imaginámos silêncios,
e súbitos regressos
quando pensámos que não voltaríamos a encontrar-nos"
José Saramago

17/06/2010

alentejei-me

Foi sem mais nem menos... que selei o 1300 azul...

"Foi sem graça, nem pensando na desgraça, que entrei pelo calor.
Sem pendura, que a vida já me foi dura para insistir na companhia..."

Percorrer montes e vales dourados, com salpicos fofos de um verde pouco vibrante, aqui e ali.
O telemóvel silencioso longe do coração.
Aridez. Interior.
Voltar onde não me permiti ser feliz outrora e sê-lo genuinamente agora.
Rever amigos, conhecer novos.
Deixar-me embalar pelo sotaque cantado dos giraldinos.
Sorrir, rir, gargalhar até cansar.
Aprender expressões novas, frases novas, brincadeiras novas com as situações e com as palavras.
Pertencer por uns dias a um grupo que não me pertence.
Estar longe e sentir-me em casa.
Pegar um bebé no colo e dar-lhe as boas vindas à família.
Atravessar o Alentejo, bem pelo meio, por onde não passa vivalma.
Estradas todas minhas, em direcção ao mar.
A sensação de, naquele preciso momento, ninguém saber verdadeiramente onde estou.

"Será que existe em mim um passaporte para sonhar?
A fúria de viver é a mesma fúria de acabar..."

Estar totalmente só.
Sentir que a solidão é natural, é fácil, é tranquila.
Estar só no meio de nada é tão mais fácil que a solidão acompanhada.
Ter a companhia das cegonhas, par em par, par em par...
Em Sines tornar real o virtual.
Mais que conhecer, reconhecer um amigo.
Copos vazios à beira-mar, dar outro sabor àquela costa.
Mergulhar sem roupa, só porque sim, só porque quero, só porque posso.
Sentir-me parte daquele mundo e sentir-me de ninguém.
Atravessar entre os golfinhos.
Sentir o vento no corpo.
O caminho que me leva a casa...
Abrir a porta cansada, sorridente e salgada.

"Alentejei-me" e foi tão bom!



"Talvez... um dia... me encontre.
Assim... talvez me encontre"

07/06/2010

foolish games

You took your coat off and stood in the rain,
You're always crazy like that.
And I watched from my window,
Always felt I was outside looking in on you.
You're always the mysterious one with
Dark eyes and careless hair,
You were fashionably sensitive
But too cool to care.
You stood in my doorway, with nothing to say
Besides some comment on the weather.

Well in case you failed to notice,
In case you failed to see,
This is my heart bleeding before you,
This is me down on my knees, and...

These foolish games are tearing me apart,
And your thoughtless words are breaking my heart.
You're breaking my heart...

You're always brilliant in the morning,
Smoking your cigarettes and talking over coffee.
Your philosophies on art, Baroque moved you.
You loved Mozart and you'd speak of your loved ones
As I clumsily strummed my guitar.

Well, excuse me, guess I've mistaken you for somebody else,
Somebody who gave a damn,
Somebody more like myself.

You're breaking my heart...

Please be carefull with me...
I'm sensitive, and I'd like to stay that way...

(Jewel)

30/05/2010

fireflies


this weekend i ran between fireflies in my parents garden
the grass was fresh and cool with small bright spots of yellow light
s flickering around
i felt like dancing, i kind of did
almost magic
felt like a child again
so cool...
:)

20/05/2010

Fizz limão

Sol, calor e Fizz limão.
Logo à primeira lambidela sou inundada pelas memórias da adolescência.
O sabor de nata e limão foram acompanhados de tardes inteiras na relva das piscinas com direito a muitos risos, cartadas e conversas de tudo e de nada, de viagens de pendura nas aceleras dos amigos até Peniche "sim mãe, chegámos bem à praia, sim mãe, é claro que viemos de autocarro..."
Os primeiros ensaios de namoro e os primeiros beijos demorados sabem a Fizz limão.
Obrigada por teres voltado, encheu-me o coração.

11/05/2010

volto a ti

Há algum tempo que não fazia este caminho.
Soube-me muito bem.
O céu está de um azul tão intenso, com umas núvens tão fofas que quase parece ouvir-se o jingle dos Simpsons a surgir em letras amarelas.
A viagem faz-se mais rápido do que esperado, as distracções do caminho ajudam o tempo a passar, não se sente a solidão, nem a angústia do asfalto.
É primavera, a mata é pincelada de amarelos que bem-me-querem e borrões alilasados.
Passar ao lado das praias da infância, seguir a par com a linha do comboio, atravessar o pinhal do Dinis, a serra lousanense com os voos acrobáticos das aves de rapina a saudarem-me no caminho de alcatrão.

E depois, encontrá-la de frente... lá no alto, banhada pelas águas do Mondego.
Linda, cidade da saudade, menina-mulher, universidade, trajada a rigor para a festa dos estudantes... sempre, sempre estudante.

O rever de amigos, o aconchego de onde parece nunca se ter saído, tudo tão meu.
Sabe bem ao coração.
Bebe-se, brinda-se, canta-se, dança-se... com alguém que nunca vi, mas que beijo de boa-sorte.

Leio a frase deste ano:
"Momentos que passam, saudades que ficam"

Sim, esta é para mim.

Tudo faz sentido e sabe tão bem...


Coimbra.

17/04/2010

à margem



Continuo a conhecer as pessoas mais impossíveis e improváveis.
Continuo a descobrir os mais voláteis, mais border-line, mais sem saída.
Encontro-os inesperadamente, mas são escolhidos a dedo, são escolhidos por um motivo.
Na sua impossibilidade transmitem-me alguma calma, aquela sensação de quem nada quer, nada exige, nada espera, nada precisa.
Chegam e partem.
Trazem-me emoções, diversão, problemas subtis e alguns danos colaterais, mas não requerem plano, estratégia, perspectiva... o que tranquiliza desde o início.
Nada funciona, nada resulta, nada é "para sempre", e é assim que é suposto ser.
Continuam a surgir, continuam a partir.
E eu...
Eu continuo aqui, sentada na margem...
Silenciosa e quieta...
Continuo à tua espera...
Quando é que me vens buscar?

11/04/2010

valsa a três tempos

Lisboa à noite.
Amena e musical.
Começa uma escalada de ruelas.
Oiço música lá à frente.
São violinos e acordeão... uma valsa.
Será real?
Páro no Largo do Carmo. Ali, em frente ao Convento, dança-se.
Gostava tanto de dançar uma valsa... esta música...
Ele olha para mim, sorri e estende-me a mão:
"-Estou a precisar de um par."
Rodopios alinhados numa noite mágica.
As voltas, os passos pequenos, a música que me embala nos braços de um estranho.
Uma das experiências mais românticas da minha existência, com direito a vénia no final.
Surpreendente e curiosamente... real.
Obrigada pela dança, foi muito especial.
Há noites assim...
:)

"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música."
(Nietzsche)

02/04/2010

candles



"how far that little candle throws his beams!
so shine a good deed in a naughty world"

(William Shakespeare)

23/03/2010

talvez...


Talvez um dia se acabe
esta loucura que arde
e faz arder loucamente
o dia por acabar

Talvez um dia se vá
a doce melancolia
eterna a terna magia
do beijo por esperar

Talvez um dia
porém...
até que a morte separe
juro o verso que roubei

Que a chama dure, perdure
na verdade que sonhei
e o sonho acorde seguro
da noite em que te encontrei

Olho-te, quero-te, tenho-te, amo-te
Enrolo-te, devoro-te, juro-te, adoro-te
Jogo-te, ganho-te, ganho-te, exploro-te
Jogo-te, perco-te, perco-te, choro-te

(Plágio de Maria de Vasconcelos)

10/02/2010

Saudades trago comigo



Saudades trago comigo
Do teu corpo e nada mais
Pois a lei por que me sigo
Não tem pecados mortais

Talvez tu queiras saber
Porque em vida já estou morto
São apenas, podes crer,
As saudades do teu corpo

E tu que sentes por mim
Desde essa noite perdida
Sentes esse frio em ti
Que eu sinto na minha vida

Eu sei que o teu corpo
Há-de sentir a falta do meu
Por isso eu tenho a saudade
Que o meu corpo tem do teu

(António Calém/Camané)

18/01/2010

Butterfly


To accomplish much you must first lose everything
(Che Guevara)

17/01/2010

Amizade



As relações humanas são musicais.
(Walter Riso)

A amizade acompanha a entoação porque os amigos cantam a amizade quando falam.
A entoação implica sempre interesse, se o nosso interlocutor é parco e amorfo não nos sentimos amados.
A linguagem que não se saboreia é uma alocução lida num idioma desconhecido, não se entende nem se degusta.
Daí a descrença na virtualidade, daí a necessidade de contacto e proximidade com aqueles que nos fazem bem e a quem chamamos de amigos.
Daí a diferença entre contactar alguém e manter o contacto com alguém.
Esta é a diferença entre trocar palavras só de letras e trocar palavras com "tom musical".
Basta fechar os olhos e saborear cada palavra, cada inspiração, cada entoação de carinho, saber que muitas vezes não importa o que se diz, mas como se diz, não importa tanto saber falar como saber estar.

Um abraço, um beijo, um sorriso, uma nota musical
a todos os que não têm medo de estar lá

05/01/2010

Todos diferentes

Temos pessoas na nossa vida com quem podemos partilhar umas gargalhadas, há outras com quem podemos chorar e em cujos colos podemos descansar.

Há pessoas com quem partilhamos um bom vinho e outras com quem podemos passar a tarde numa esplanada a beber finos e comer tremoços.

Com umas vamos ao teatro, a um concerto, ao cinema... com outras saímos para beber copos e dançar até cair.

Com umas vamos às compras, com outras partimos sem rumo.

Umas emprestam-nos roupa, outras emprestam-nos livros.

Com umas bebemos chás perfumados com scones e bolachinhas, com outras fazemos daquelas jantaradas.
Umas ouvem as nossas músicas, outras levam-nos a ouvir as suas.

Umas viajam connosco, outras contam-nos histórias das suas viagens e outras viajam até nós.

Com umas passeamos de mão dada à beira-mar, com outras escondemo-nos à beira-rio.

Umas filosofam, outras fazem-nos rir das suas parvoíces.

São todas diferentes, mas são todas parte da nossa vida e todas importantes.
Porque falham as relações? Porque nos desiludimos com as pessoas?
Talvez uma parte de nós procure juntar as características numa pessoa só.
Não me parece muito possível e não me parece nada justo. É demasiada responsabilidade para uma pessoa só, é um fardo que ninguém pode nem deve carregar.
Tenho pessoas que me acompanham num teatro, outras num café, outras num copo de esplanada, outras num passeio ao pôr-do-sol, outras para um ombro amigo...
Todas diferentes... todas importantes...
A minha casa está sempre aberta para os receber, mas só a alguns posso abrir a porta de pijama, pantufinhas e olhos inchados de chorar.
Se és um dos "felizes contemplados" estarás para sempre no meu coração.

A todos um feliz 2010 e obrigada por estarem por perto.