Pescar um espadarte não é fácil.
Torna-se ainda mais difícil quando nunca vimos nenhum, nunca comemos nenhum, quando o mais perto que estivemos de encontrar um foi nas palavras da experiência de alguém.
Será que existem mesmo espadartes?
Não será isso um mito? como as sereias que seduzem marinheiros desprevenidos?
Perco-me muitas vezes nesta pesca de um peixe que não conheço...
A pesca é difícil e exigente.
Nunca tive a paciência necessária para pescar.
Divirto-me a observar a minha (má) sorte no anzol, mas o tempo de espera é sempre para mim uma tortura.
Pesco muitas algas com as mais variadas cores e formas, que me dão vida à rede, me alegram e me divertem.
Pesco peixinhos dourados, carapaus desenxabidos, taínhas asquerosas, polvos metediços, estrelas e ouriços do mar (bonitos de ver mas que não servem para comer), peixes de rio, peixes de mar, peixes de aquacultura que nunca experimentaram a liberdade... devolvo-os todos, deixo-os ir.
No entanto, noto em mim uma forte tendência para a sardinha.
A pequena, louca e irrequieta sardinha.
Aguardo um Inverno de ansiedade para a reencontrar, delicio-me com ela, adoro o seu sabor, satisfaz-me nas noites quentes de Verão.
É um peixe que nos deixa nas mãos o seu cheiro durante horas, lavo, lavo e lavo e o cheiro permanece cravado na pele.
É também frequente, depois da refeição, ficar com uma espinha ou outra atravessada na garganta como aquelas palavras que nos engasgam e custam a sair.
Acabando o Verão desaparecem, vão embora nos seus cardumes de loucura.
Gosto de sardinhas, sei que gosto.
Como vou eu pescar um espadarte, se não consigo esquecer as sardinhas?
Será que quero mesmo pescar um espadarte?
Será que tenho essa força? essa vontade? esse querer?
Será que prefiro a certeza e segurança de um peixe "rico" como o espadarte ou o desafio espinhoso, a aventura alucinante, o vai e volta inconstante e o intenso sabor da sardinha?
As metáforas matam-me, mas a vida é mesmo um mar de dúvidas...
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