13/08/2010

cantiga de amor


Era sábado. As noites começavam a aquecer.
Ele chega à minha casa, abro-lhe a porta, trazia uma camisa escura e o cabelo despenteado de gel.
Sentei-me no sofá e ele à minha frente.
O discurso era fatalista, porque tinha de ser, porque era o mais correcto... o fim, inevitavelmente o fim.
Nem eu nem ele ouvíamos o que dizíamos, chamávamos um pelo outro em silêncio.
Demos as mãos frente a frente.
Nunca consegui comunicar tão bem com ninguém através das mãos como o fazia com ele.
As nossas mãos falavam, diziam tudo, queriam tudo, compreendiam-se.
Olhei-o nos olhos, beijei-o:
-Faz amor comigo.
-Sabes que quero...
-Faz amor comigo como se fosse a última vez. - repeti-lhe.
-Não - disse ele - tem de ser como se fosse a primeira vez.
Entregámo-nos, fomos um do outro, inteiros, verdadeiros, o corpo, a alma, boca com boca, olhos nos olhos, palavras sussurradas... a minha cama foi dele e eu também.
Despedimo-nos à porta, beijou-me as lágrimas.
Saiu sem olhar para trás, vi-o afastar-se, fechei a porta com as costas e deixei-me escorregar até ao chão.
Ali, sentada na pedra fria, eu sabia...
Tínhamos os dois razão.
Aquela foi a primeira e a última vez que fizemos amor.

Porque a minha casa ainda se lembra de ti.

Cantiga de amor

Sem comentários:

Enviar um comentário