01/08/2009

Qual é a cidade?


Li há alguns dias num livro que podemos resumir a identidade de um local ou de uma pessoa a uma só palavra e que isso nos pode ajudar a perceber porque há sítios, lugares, países, cidades onde nos sentimos em casa e outros em que, por mais que nos esforcemos não conseguimos aceitar como nossos.
Ao início isto pode parecer uma ideia muito redutora, mas obrigou-me a um exercício muito interessante e inesperado.
Já vivi em várias cidades e descobri um nome/palavra para cada uma delas.
A cidade onde nasci e onde vivi a adolescência não consigo identificá-la com mais nenhuma palavra a não ser FAMÍLIA, não sei se é uma ideia ou pensamento comum aos seus habitantes, mas não consigo desligar a palavra à terra. É onde eu tenho o colo, é onde reencontro os familiares mais próximos do coração e os amigos de berço que, por sempre terem existido na minha vida, são família também.
Coimbra, onde estudei, pode ser duas palavras.
Coimbra é SAUDADE. Respira-se a saudade, canta-se e vive-se a saudade. É uma cidade que ficou e ficará para sempre guardada no meu coração, onde gosto de voltar todos os anos, mas não é uma cidade onde pudesse viver. Sou nostálgica e romântica, podia inserir-me nesse contexto, mas SAUDADE não é a palavra que me identifica. Se voltasse a viver em Coimbra possivelmente ir-me-ia afundar em melancolia.
Coimbra é também UNIVERSIDADE, mas mais uma vez, só se sente e faz sentido vivê-lo enquanto se é estudante.
Évora, onde trabalhei alguns anos é CALMIA, como a paisagem, como as planícies, como a maneira que o sol encontra de a banhar. É uma cidade cheia de pequenos encantos, boa gastronomia, habitantes risonhos e simpáticos. É uma terra linda para se visitar, mas para mim a calmia não me chega para viver, sinto-me enclausurada e falta-me o ar, falta-me qualquer coisa para além do que Évora oferece.
Lisboa, acho que é FADO. O fado não só como canção, mas em todo o seu significado, de destino, de aceitação, em todas as suas vertentes bairrista, da espera, da tristeza, de paisagens e cheiros que a própria cidade vai desenhando.
Lisboa ainda encerra em si o cheiro da sardinha assada, o som da guitarra portuguesa pelas vielas de alfama, as "peixeiradas" nos bairros, a tristeza de quem espera que nos ficou das mulheres que viram os homens partir para o mar e nunca mais voltaram...
Lisboa é FADO, é esse fado de quem espera, senta, conta, chora, sente e sofre.
Apesar do fado me dizer muito à alma, apesar de o sentir na pele e nos ossos, não sei se consigo dizer que esta é a minha cidade. Estou a aprender a descobrir e amar Lisboa, mas também não é esta a minha palavra.
Foi muito fácil saber a minha palavra e quem me conhece também a descobre facilmente. Está presente em todos os meus dias, está em mim, em tudo o que sou, tudo o que faço, está na minha maneira de me comunicar, na minha vida, nas minhas escolhas, em tudo o que me faz feliz.
Será que alguem conhece a cidade do AMOR?

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